A carta

Março 20, 2008

10 de outubro de 1911

Olá meu amor!

Depois de mais de cinco meses de total silêncio teu, finalmente tive notícias tuas e pude te achar aí, no coração da África, onde – espero – receberás esta minha missiva. Na verdade, estou apreensivo, já que não sei como é o serviço postal neste lugar, e esta primeira carta pode vir a se perder antes que teus olhos consigam lê-la.

Obviamente meu assunto principal contigo é saber com exatidão o motivo deste teu silêncio. O motivo para não me responderes à última carta, enviada ainda para Lisboa, onde estavas antes de partir nesta louca empreitada pelo Continente Negro. Lesses também, assim espero, o ótimo livro que te mandei, do nosso grande Wilde. Talvez devesses espelhar-se no anti-herói, Dorian, personagem do livro. Mas espelhar-se no sentido de ver como a vida pode cobrar-te todas as atrocidades que cometes para comigo. Principalmente deixando-me nesta ansiedade maldita, que só curo com alguns bons remédios, dados pelo nosso também querido amigo, Lino (ele te mandou lembranças!). Porém, corrijo-me, pois também não poderia esquecer das atrocidades que cometes para com todos a tua volta; teus parentes, inclusive; e principalmente tua mãe, que tanto te quer bem. Ela sofre, como eu, tua ausência forçada. Sei que querias fugir de um possível escândalo entre nós dois, mas podias ter me avisado! Fugiria contigo, sabes bem disso.

Mas não!, preferisses a solidão, e, agora, pelo que sei, vives neste mundo tão diferente e tão excitante. No meio do nada, talvez com belas mulheres e homens ao teu redor, nas orgias que tanto gostas. O que me lembra a nossa última “festa”, como gostavas de chamar. Ficavas sempre perto de mim; raramente nos desgrudávamos nesta hora. Nossa pele parecia que se atraía, distanciávamo-nos dos outros neste momento, mesmo dividindo a cama com quatro ou cinco pessoas. Na última, acho, estavam Lino, sua amante e mais duas “mocinhas”. Só lembro que terminei a metade da garrafa de absinto, e que vocês queriam me matar por isso. Daí em diante, pouca coisa me recordo além de teu corpo nu sob o meu; tua (e minha também) excitação em ver as pessoas se amando a nossa volta. Imagino que faças o mesmo aí nesta selva. Com teu dinheiro e tua beleza, não seria realmente difícil. Além, é claro, de teus outros atrativos, como a inteligência aguçada, que faz de ti um ser superior em vários níveis. E sim, superei nossas diferenças literárias. Nas últimas cartas, quando discutíamos sobre literatura e dizias que Flaubert não te aprazia, sabes que fiquei deveras magoado. Mas isso passou. Tentei entender o teu lado e tua preferência por Balzac. Sabes também que adoro Balzac, portanto, esqueceis nossas pequenas divergências neste campo.

Termino esta carta, reforçando que não estou falando isso tudo para te bajular, pois sabes que eu sou teu, como sempre fui. Só quero te ver novamente. Estar em teus braços. Beijar-te como dois loucos amantes beijam-se à beira da morte.

 

Preciso de ti, meu querido. Preciso das tuas cartas. Preciso do teu corpo e tua mente.

 

Sempre teu

Rui

Publicado no CLAP #01, em janeiro de 2007

orgia-estatuas.jpg

Leave a Reply